Só agora me apercebo do ponto a que cheguei. Passei a estar
acompanhada por um olhar que na realidade não me persegue e isso deixa-me cada
vez mais sozinha, mais desorientada, aproximando-me do abismo onde prometi jamais
cair. A terra começa a desmoronar-se, os pés a perder o equilíbrio e os olhos a
desfocar o caminho. Ao fundo distingo nuvens e por entre elas cega-me uma luz
que, se olhar de perto, não passa de uma lâmpada artificial que alguém acendeu involuntariamente.
Pelo caminho vou largando tudo o que antes considerava importante, sobretudo os
ideais que antes seguia com tanta convicção. Lembro-me de há uns tempos prometer
olhar para o mundo com um sorriso, mas percebo cada vez melhor de que não faz qualquer
sentido, se assim fosse o que seria da razão? Sinto que a revolta é necessária,
principalmente porque a sinto, mas será ela contra o que me rodeia ou contra o que
se apodera de mim?
Sei de tudo, menos do medo, e esse apoderou-se de mim e do tempo,
fazendo com que agora seja tarde de mais e obrigando-me a voltar para a
monotonia que temia.

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